Paciente em hospital cercado por gráficos científicos e elementos visuais abstratos representando a investigação científica das experiências de quase-morte.
Representação artística da tentativa científica de medir experiências de quase-morte através da Escala de Greyson.

O problema que ninguém queria enfrentar

Quando dois investigadores estudam o mesmo fenómeno mas usam critérios diferentes, os seus resultados são incomparáveis. Antes de 1983, era isso que acontecia em toda a investigação sobre experiências de quase-morte (EQM). Cada clínico definia à sua maneira o que contava como EQM e o que era apenas um sonho vívido, um episódio dissociativo, ou uma alucinação induzida por hipóxia.

A ciência não consegue avançar sem linguagem comum. E a linguagem comum exige instrumentos de medição padronizados. Foi para resolver este problema que o psiquiatra norte-americano Bruce Greyson desenvolveu, em 1983, aquela que viria a tornar-se a ferramenta mais utilizada em toda a investigação científica sobre EQMs: a Escala de Greyson, publicada no Journal of Nervous and Mental Disease.


Bruce Greyson analisando documentos acadêmicos relacionados à investigação científica das experiências de quase-morte.
O psiquiatra Bruce Greyson desenvolveu a principal escala científica utilizada para estudar experiências de quase-morte.

Quem é Bruce Greyson?

Bruce Greyson não é um entusiasta do paranormal nem um crente convertido. É um psiquiatra formado pela Universidade de Virgínia, onde completou a residência em 1976 e onde acabaria por passar grande parte da sua carreira, culminando no cargo de Professor Emérito de Psiquiatria e Neurociências do Comportamento — a mais alta distinção académica da instituição.

O interesse nas EQMs nasceu de forma inesperada, pouco depois de terminar a faculdade de medicina: tratou uma doente inconsciente na urgência e ficou profundamente surpreendido com o relato que ela fez no dia seguinte — uma descrição detalhada de eventos que ocorreram enquanto estava clinicamente inconsciente. Desde então, dedicou mais de 45 anos ao estudo sistemático deste fenómeno.

Foi co-fundador e presidente da International Association for Near-Death Studies (IANDS), editor do Journal of Near-Death Studies, e dirigiu a Division of Perceptual Studies (DOPS) da Universidade de Virgínia entre 2002 e 2014. É frequentemente referido como o “pai da investigação científica em EQMs”. A sua obra acumula mais de 10.500 citações académicas.


Como foi construída a Escala?

Infográfico da Escala de Greyson mostrando os quatro domínios das experiências de quase-morte.
A Escala de Greyson organiza as EQMs em quatro dimensões principais: cognitiva, afetiva, paranormal e transcendental.

A Escala de Greyson não foi construída com base em especulação teórica. O processo foi empiricamente rigoroso para os padrões da época:

A publicação original — disponível na PubMed — demonstrou elevada consistência interna, fiabilidade teste-reteste, e validade convergente com o Índice de Experiência Central Ponderado de Kenneth Ring, o único instrumento comparável existente à data.


Como funciona a Escala?

A Escala de Greyson é composta por 16 perguntas organizadas em quatro domínios:

Cada item é pontuado de 0 a 2, perfazendo um total máximo de 32 pontos. Uma pontuação igual ou superior a 7 classifica a experiência como uma EQM genuína, distinguindo-a de outras experiências alteradas da consciência.

Esta distinção é clinicamente relevante: a escala foi desenhada precisamente para diferenciar EQMs de síndromes cerebrais orgânicos, respostas dissociativas ao stress, e outros estados alterados.


O impacto nas décadas seguintes

A Escala de Greyson tornou-se o padrão internacional de referência. Sem ela, estudos como o de Pim van Lommel publicado no The Lancet (2001) ou o Estudo AWARE de Sam Parnia (Resuscitation, 2014) não teriam um critério comum para identificar os seus sujeitos.

A escala influenciou diretamente toda uma geração de investigadores e permitiu, pela primeira vez, comparar dados entre estudos realizados em países e contextos culturais distintos — condição indispensável para qualquer afirmação científica sobre a universalidade do fenómeno.

Em 2025, o próprio Greyson apresentou um instrumento complementar: a Escala vNDE (veridical NDE Scale), especificamente desenhada para quantificar perceções evidenciais — casos em que o relato inclui informação verificável que o sujeito não poderia ter obtido por meios normais durante uma paragem cardíaca.


Figura caminhando em direção a uma luz intensa entre um ambiente hospitalar e um cenário transcendental representando uma experiência de quase-morte.
Representação artística da fronteira entre experiência clínica e percepção transcendental relatada em algumas EQMs.

As limitações que o próprio Greyson reconhece

Um artigo rigoroso sobre este tema exige honestidade sobre o que a escala não pode fazer.

Greyson é o primeiro a reconhecer estas limitações. Numa entrevista concedida ao DOPS da Universidade de Virgínia, afirmou que a investigação em EQMs “desafia-nos a pensar mais profundamente sobre a relação entre mente e cérebro” — sem afirmar que a resolve.


O que décadas de dados revelam?

Com a escala como instrumento padronizado, foi possível agregar dados de milhares de casos ao longo de décadas. Alguns padrões emergem com consistência suficiente para merecer atenção científica:


Conclusão: a pergunta mais honesta

A Escala de Greyson não responde à grande questão — se há ou não continuidade da consciência para além da morte. Mas fez algo igualmente importante: transformou uma questão filosófica numa questão empiricamente investigável.

Antes de 1983, dizer “tive uma EQM” e dizer “tive um sonho intenso” eram afirmações clinicamente indistinguíveis. Depois da escala, passaram a ser distinguíveis — não na sua causa, mas na sua estrutura, consistência e padrão de ocorrência.

É esse o valor da ferramenta. E é por isso que continua a ser, mais de quarenta anos depois, o instrumento de referência em toda a investigação científica sobre o fenómeno.


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