As Experiências de Quase Morte (EQMs) estão entre os fenômenos mais intrigantes estudados pela ciência moderna. Relatos de pessoas que estiveram à beira da morte frequentemente incluem sensações de paz profunda, percepção fora do corpo, encontros com familiares falecidos e uma intensa revisão da própria vida. Embora essas experiências sejam conhecidas há séculos, apenas nas últimas décadas passaram a ser investigadas de forma sistemática por pesquisadores acadêmicos.

No Brasil, três nomes se destacam quando o assunto é pesquisa científica sobre EQMs, consciência e experiências anômalas: Alexander Moreira-Almeida, Everton Maraldi e Edson Amâncio. Cada um contribui de maneira distinta para a compreensão desse fenômeno — e compreender o perfil de cada um é essencial para avaliar o peso e o alcance de suas afirmações.

O que é uma Experiência de Quase Morte (EQM)?

Uma Experiência de Quase Morte é um conjunto de percepções relatadas por pessoas que passaram por situações de risco extremo, como parada cardíaca, acidentes graves, afogamentos ou outras condições potencialmente fatais.

Entre os elementos mais comuns estão:

A semelhança entre relatos provenientes de diferentes culturas, épocas e contextos religiosos é um dos aspectos que mais chama a atenção dos pesquisadores — e um dos principais desafios às explicações puramente neurológicas.

Alexander Moreira-Almeida: O Principal Expoente Acadêmico Brasileiro

Retrato em aquarela do psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, professor da UFJF e fundador do NUPES, pesquisador de consciência e experiências de quase morte
Alexander Moreira-Almeida, psiquiatra, Professor Titular da UFJF e fundador do Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (NUPES). Ilustração artística gerada com auxílio de inteligência artificial com base em imagem pública. Fins exclusivamente editoriais.

Alexander Moreira-Almeida é Professor Titular de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e fundador e diretor do Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (NUPES/UFJF). Possui graduação em Medicina pela UFJF, residência e doutorado em Psiquiatria pela USP, e pós-doutorado pela Duke University, nos Estados Unidos.

Trajetória institucional

Sua inserção no cenário internacional é significativa. Foi coordenador da Seção de Espiritualidade da Associação Mundial de Psiquiatria (WPA) entre 2014 e 2020, período em que coordenou a elaboração do Position Statement on Spirituality and Religion in Psychiatry — documento oficial da WPA sobre o tema. Foi também fundador da Comissão de Estudos em Espiritualidade e Saúde Mental da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) entre 2014 e 2021. Seu perfil no ResearchGate registra mais de 220 artigos acadêmicos com mais de 10.400 citações.

Em 2025, recebeu o Prêmio Oskar Pfister da American Psychiatric Association (APA) — a maior distinção na área de psiquiatria e espiritualidade, concedida anualmente desde 1983. Sua conferência de premiação, proferida em Los Angeles no Congresso Anual da APA, abordou as implicações das experiências espirituais e anômalas para a compreensão de uma mente que pode transcender o cérebro físico.

Posição sobre EQMs

Seu principal interesse de pesquisa envolve a relação mente-cérebro e estudos empíricos sobre experiências espirituais. Moreira-Almeida não afirma que as EQMs comprovam a sobrevivência da consciência após a morte, mas considera inadequado descartá-las como simples alucinações. Seu argumento central é que o fenômeno apresenta características que não se encaixam facilmente nos modelos neurológicos tradicionais e que, portanto, merece investigação científica rigorosa e sem preconceitos em nenhuma direção.

Ele organizou o livro Exploring Frontiers of the Mind-Brain Relationship (Springer, 2012), obra de referência que reúne pesquisadores internacionais sobre consciência e EQMs, e que foi descrita por especialistas como um equilíbrio raro entre análises físicas e psicobiológicas da consciência.

Por que ele importa para o debate

Sua relevância está na credibilidade institucional combinada com a ousadia intelectual de levar o tema a sério dentro da academia. Diferentemente de autores puramente espiritualistas ou de céticos que descartam o fenômeno sem investigá-lo, Moreira-Almeida trabalha dentro dos padrões da ciência contemporânea — o que torna suas posições particularmente difíceis de ignorar.


Everton Maraldi: A Psicologia das Experiências Anômalas

Retrato em aquarela do psicólogo Everton Maraldi, pesquisador de experiências anômalas e estados alterados de consciência, professor da PUC-SP e pesquisador do IPq-USP
Everton Maraldi, psicólogo, doutor em Psicologia Social pela USP e pesquisador do Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP. Ex-presidente da Parapsychological Association (EUA). Ilustração artística gerada com auxílio de inteligência artificial com base em imagem pública. Fins exclusivamente editoriais

Everton de Oliveira Maraldi é psicólogo e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR). É também pesquisador no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (IPq-HCFMUSP), onde coordena o Programa de Pesquisa em Experiências Não-Ordinárias e Estados Alterados de Consciência (PROEXP).

Formação e trajetória

Possui mestrado, doutorado e pós-doutorado em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da USP. Realizou estágios pós-doutorais na Universidade de Oxford (SCIO – Scholarship and Christianity in Oxford) e na Universidade de Coventry (Brain, Belief and Behaviour Lab), no Reino Unido. Foi presidente da Parapsychological Association (Estados Unidos) entre 2023 e 2025 — cargo que o coloca entre os pesquisadores de fenômenos anômalos mais reconhecidos internacionalmente. Publica em periódicos como Frontiers in Psychology, Journal of Nervous and Mental Disease e Acta Psychiatrica Scandinavica.

Abordagem e contribuições

Seus temas centrais de pesquisa são espiritualidade, religiosidade e saúde mental; dissociação e transtornos dissociativos; e experiências anômalas e estados alterados de consciência. No contexto das EQMs, seu foco está menos na questão metafísica da sobrevivência da consciência e mais nos mecanismos psicológicos que moldam como essas experiências são vivenciadas, interpretadas e integradas à identidade pessoal.

Entre os fenômenos que investiga está a experiência fora do corpo — componente frequente das EQMs —, que estima ocorrer em 10% a 25% da população mundial e que apresenta hipóteses etiológicas que vão desde estimulação de áreas cerebrais específicas até estados dissociativos e relações com crenças religiosas.

Mudanças após uma EQM

As pesquisas na área — às quais Maraldi contribui — indicam que muitas pessoas que passam por uma EQM relatam:

Essas transformações frequentemente persistem por décadas, tornando-se um dos aspectos mais intrigantes e cientificamente legítimos do fenômeno — independentemente de qualquer posição sobre sua origem.


Edson Amâncio: O Neurocirurgião que Levou o Tema ao Grande Público

Retrato em aquarela do neurocirurgião Edson Amâncio, autor do livro Experiências de Quase Morte: Ciência, Mente e Cérebro
Edson Amâncio, neurocirurgião e autor de Experiências de Quase Morte: Ciência, Mente e Cérebro (Summus, 2021). Ilustração artística gerada com auxílio de inteligência artificial com base em imagem pública. Fins exclusivamente editoriais.

Edson Amâncio representa uma perspectiva diferente das duas anteriores: a do clínico que parte de décadas de prática neurocirúrgica para se debruçar sobre as EQMs como divulgador científico. Médico e neurocirurgião, realizou mestrado e doutorado na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), foi professor adjunto de Neurocirurgia na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) e no Centro Universitário Lusíadas (Unilus), em Santos, e presidiu o I Congresso Paulista de Neurociências, em 2002.

Como chegou ao tema

Seu interesse pelas EQMs nasceu em 2005, quando se deparou com o estudo do cardiologista holandês Pim van Lommel, publicado na The Lancet em 2001 — um dos trabalhos mais citados na área, descrevendo 344 casos documentados de EQMs em pacientes holandeses. A partir daí, ao longo de mais de 15 anos, Amâncio coletou relatos de pacientes que passaram por morte clínica, muitos deles oriundos de sua própria prática clínica.

Em 2021, publicou Experiências de Quase Morte: Ciência, Mente e Cérebro (Summus Editorial) — obra de divulgação que sistematiza esse material para o público brasileiro.

Postura intelectual

O próprio Amâncio é explícito sobre seu lugar nesse debate: embora tenha exercido neurologia e neurocirurgia por mais de 40 anos, não se apresenta como especialista em EQM no sentido acadêmico estrito, mas como um observador rigoroso comprometido com levar o debate científico ao grande público. Na obra, examina tanto hipóteses neurológicas convencionais quanto questões ainda não resolvidas pela neurociência, mantendo postura de observador neutro diante das evidências acumuladas.

Nota editorial: Ao contrário de Moreira-Almeida e Maraldi, que possuem perfis acadêmicos com publicações indexadas em periódicos revisados por pares, Amâncio é primariamente um divulgador científico com trajetória clínica sólida. Suas contribuições ao debate são valiosas, mas situam-se num registro diferente — o da comunicação científica para o grande público, não da produção de pesquisa original.


O Que Esses Pesquisadores Consideram Mais Difícil de Explicar

Embora cada pesquisador tenha sua própria abordagem, alguns pontos costumam emergir como particularmente resistentes às explicações convencionais.

Lucidez extrema durante comprometimento cerebral. Muitos relatos descrevem clareza mental extraordinária em situações nas quais o cérebro deveria estar severamente prejudicado — como durante paradas cardíacas com ausência de atividade cortical detectável.

Percepções aparentemente verificáveis. Alguns pacientes relatam detalhes de eventos ocorridos durante procedimentos de ressuscitação que, segundo testemunhos posteriores de equipes médicas, teriam acontecido de fato — e que não poderiam ser acessados pelos sentidos normais de um paciente inconsciente.

Transformações permanentes. As mudanças psicológicas após uma EQM frequentemente duram décadas. Esse dado é robusto na literatura e não depende de nenhuma posição sobre a natureza da experiência.

Similaridade transcultural. A recorrência de elementos semelhantes em relatos de diferentes países, épocas e tradições religiosas — incluindo pessoas sem crença prévia em vida após a morte — continua sendo um dos aspectos mais intrigantes do fenômeno.


O Que Dizem os Críticos

A maioria dos neurocientistas não considera as EQMs uma evidência de sobrevivência da consciência após a morte. As principais explicações propostas incluem hipóxia cerebral (falta de oxigênio), atividade elétrica residual, efeitos de medicamentos, e memórias construídas ou reorganizadas após a recuperação.

Segundo essa perspectiva, as EQMs seriam produções do cérebro em situações críticas — fenômenos reais em termos de experiência subjetiva, mas sem implicações para a questão da sobrevivência. Contudo, mesmo entre os críticos mais rigorosos, existe reconhecimento de que aspectos específicos do fenômeno — como a lucidez em estados de comprometimento cerebral severo — ainda não foram explicados de forma completamente satisfatória.


O Futuro das Pesquisas sobre EQM no Brasil

O estudo das EQMs encontra-se em expansão no Brasil e no mundo. Novas tecnologias de monitoramento cerebral, ensaios clínicos multicêntricos como o AWARE II (coordenado por Sam Parnia na NYU) e pesquisas interdisciplinares sobre consciência prometem trazer dados cada vez mais precisos sobre o fenômeno.

Pesquisadores como Alexander Moreira-Almeida, Everton Maraldi e Edson Amâncio desempenham papéis distintos nesse processo: o primeiro como produtor de pesquisa acadêmica com reconhecimento internacional, o segundo como investigador dos mecanismos psicológicos das experiências anômalas, e o terceiro como comunicador que torna o debate acessível ao público brasileiro.


Conclusão

As Experiências de Quase Morte continuam sendo um dos temas mais desafiadores da ciência contemporânea — não porque sejam sobrenaturais, mas porque desafiam os limites do que sabemos sobre consciência, mente e cérebro. O trabalho de Alexander Moreira-Almeida, Everton Maraldi e Edson Amâncio contribui, cada um a seu modo, para que o debate avance além dos dois extremos igualmente estéreis: o ceticismo reflexivo que descarta sem investigar e o entusiasmo acrítico que conclui sem evidências.

Independentemente das respostas que o futuro trará, suas trajetórias demonstram que levar esse tema a sério é, hoje, uma posição academicamente sustentável — e intelectualmente necessária.

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